O Brasil assistiu nesta sexta-feira (15) a mais um ato da novela grotesca que se tornou o nosso Judiciário. O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu anular todos os atos da Lava Jato contra João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. Sim, o homem que foi condenado a mais de 40 anos de prisão por intermediar propinas bilionárias agora é tratado como vítima de uma suposta “farsa judicial”.
É preciso dizer sem rodeios: essa decisão é um escárnio contra a inteligência do povo brasileiro. Vaccari não foi um coitado perseguido por Sérgio Moro e procuradores de Curitiba. Ele foi citado, delatado, acusado e desmascarado em provas robustas. O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco relatou que Vaccari ajudou a canalizar entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões em propinas para o PT. O doleiro Alberto Youssef disse, em alto e bom som, ter entregue R$ 800 mil em dinheiro vivo a Vaccari e à sua própria cunhada. Documentos, contratos fraudulentos, empréstimos de fachada, tudo ligando a tesouraria do partido ao butim extraído da Petrobras.
E o que faz o STF? Apaga tudo. Rasga processos, joga provas no lixo e reescreve a história como se o maior esquema de corrupção do país fosse apenas fruto de uma “perseguição política”.
Não se trata de inocentar Vaccari — porque inocência nunca foi sequer cogitada —, mas de blindar um projeto de poder. O que se vê é a Suprema Corte transformada em trincheira política, com ministros agindo como advogados de luxo de quem saqueou a nação. É a consagração da impunidade.
A desculpa de Toffoli, de que houve conluio entre Moro e procuradores, não resiste ao mínimo de lógica. Se houve excessos, que se punam os responsáveis. Mas anular todo o processo, ignorando toneladas de provas, é rasgar o Código Penal em praça pública. É dizer ao brasileiro comum, aquele que paga imposto até no feijão e no arroz: a lei não é para todos, é só para você. Para eles, há sempre um habeas corpus, uma anulação, um ministro disposto a limpar a ficha.
O caso Vaccari é mais um tijolo na muralha de cinismo que se ergue em Brasília. Depois de Fachin, que em 2024 anulou uma pena de 24 anos alegando “incompetência da Justiça do Paraná”, agora Toffoli vem e passa a borracha em todo o histórico de condenações.
A Lava Jato revelou como nunca a engrenagem suja da política brasileira. Mas agora, na canetada de ministros, tudo se transforma em ficção. Quem rouba bilhões vira injustiçado. Quem denuncia, vira vilão.
A mensagem que fica é perversa: o crime compensa, desde que você esteja na roda certa do poder. O STF conseguiu o impensável — não apenas desacreditar a Lava Jato, mas corroer de vez a fé do povo na Justiça.
E o povo, mais uma vez, fica com a conta.
Por Marcos Soares
Jornalista – Analista Político instagram.com/@marcossoaresrj | instagram.com/@falageraltv
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