A Secretaria de Estado das Cidades (Secid), comandada por Douglas Ruas (PL), administra atualmente uma carteira de R$ 1,4 bilhão em contratos ativos. Uma análise detalhada desses números revela uma forte concentração dos recursos em municípios politicamente alinhados ao titular da pasta — e, em especial, à sua base familiar e partidária.
- “Quando o secretário direciona recursos para municípios com prefeitos aliados, isso ultrapassa a fronteira entre gestão técnica e interesse político. Mesmo que os contratos sejam legais, o critério de escolha precisa ser transparente e baseado em indicadores públicos”.
- “É preciso distinguir investimento legítimo de favorecimento político. A coincidência entre laços familiares e de aliados a destinação de recursos é, no mínimo, suspeita”.
De acordo com informações oficiais, cerca de R$ 1,3 bilhão, o equivalente a 95% do total, está sendo direcionado para sete cidades governadas por prefeitos aliados ao PL. No topo dessa lista está São Gonçalo, administrada por Capitão Nelson (PL) — que, além de ser correligionário, é pai do secretário Douglas Ruas.
O município de São Gonçalo, segundo maior do estado, concentra R$ 773,3 milhões em contratos, ou seja, mais da metade do total da Secid. Na sequência aparecem Cachoeiras de Macacu, Três Rios, Macaé, Magé e São Pedro da Aldeia, todos governados por prefeitos que mantêm relações políticas próximas ao grupo do secretário e à base do governador.
O uso estratégico de verbas
A distribuição orçamentária da Secid levanta questionamentos sobre o uso político de recursos públicos em ano pré-eleitoral. A pasta tem entre suas principais funções a execução de obras de infraestrutura urbana e habitação — áreas com alto impacto eleitoral.
Especialistas em gestão pública e cientistas políticos ouvidos pela reportagem apontam que a concentração de contratos em redutos aliados pode configurar uso estratégico da máquina estadual para fortalecer bases locais e garantir apoio político nas eleições municipais de 2024 e estaduais de 2026.
“Quando o secretário direciona recursos para municípios com prefeitos aliados, isso ultrapassa a fronteira entre gestão técnica e interesse político. Mesmo que os contratos sejam legais, o critério de escolha precisa ser transparente e baseado em indicadores públicos”.
A presença de Douglas Ruas em posição estratégica de uma secretaria com orçamento bilionário — cria um núcleo de poder sem precedentes recentes no estado.
Internamente, aliados afirmam que o volume de contratos em São Gonçalo reflete “demandas históricas” do município, que sofre com carência de obras estruturantes. No entanto, adversários políticos veem o caso como exemplo de aparelhamento da estrutura pública estadual.
“É preciso distinguir investimento legítimo de favorecimento político. A coincidência entre laços familiares e de aliados a destinação de recursos é, no mínimo, suspeita”.
A concentração de 95% dos contratos em áreas politicamente simpáticas ao governador e ao secretário reforça a percepção de centralização partidária e patrimonialização da gestão pública.
Com as eleições se aproximando e o cenário político fluminense cada vez mais polarizado, o caso promete reacender o debate sobre transparência, conflito de interesses e o limite entre gestão e política no uso dos recursos estaduais.
O caso da Secid é emblemático de uma prática recorrente na política fluminense: usar o orçamento estadual como instrumento de influência eleitoral. Mesmo sem evidências diretas de ilegalidade, o padrão de concentração de recursos em redutos aliados indica um modelo de poder que se sustenta na troca de benefícios e na consolidação de feudos políticos regionais.
Buscando ampliar sua presença nas prefeituras e o nome de Douglas Ruas cotado para voos políticos mais altos, os R$ 1,4 bilhão da Secretaria de Cidades podem se tornar mais do que números — um termômetro da disputa de poder no estado.
Por Marcos Soares
Jornalista – Analista Político instagram.com/@marcossoaresrj
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