Ex-prefeito tenta chegar ao Palácio Guanabara após longa trajetória política; acusações envolvendo campanhas eleitorais, Odebrecht, contratos de ônibus e decisões administrativas integram histórico explorado por seus adversários
Eduardo da Costa Paes, candidato do PSD ao Governo do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026, chega à disputa pelo Palácio Guanabara como um dos políticos mais conhecidos do estado — e também como personagem de uma trajetória marcada por controvérsias administrativas, investigações e processos judiciais.
- Ex-prefeito tenta chegar ao Palácio Guanabara após longa trajetória política; acusações envolvendo campanhas eleitorais, Odebrecht, contratos de ônibus e decisões administrativas integram histórico explorado por seus adversários
- Odebrecht e as suspeitas sobre recursos eleitorais
- O codinome “Nervosinho”
- Inquérito sobre a campanha de 2014 chegou ao STF
- STF anulou decisões da Justiça Federal e determinou envio de casos à Justiça Eleitoral
- Obras da Olimpíada: acusação de fraude em licitação e corrupção
- Contratos de ônibus e ação envolvendo mais de R$ 500 milhões
- Cancelamento de R$ 1,4 bilhão em empenhos
- Marcha para Jesus e gasto de R$ 1,6 milhão
- Campo de Golfe Olímpico
- Ciclovia Tim Maia tornou-se símbolo das críticas às obras da era olímpica
- Mudanças de partido e alianças também são alvo de críticas
- Promessa de permanecer na Prefeitura também virou munição eleitoral
- O peso político de uma longa passagem pelo poder
- Histórico será um dos principais campos de batalha da eleição
Paes nasceu no Rio de Janeiro, em 1969, é formado em Direito pela PUC-Rio e iniciou sua trajetória política ainda jovem. Foi subprefeito da Zona Oeste, vereador, deputado federal, secretário estadual e prefeito da capital fluminense por quatro mandatos.
Em 2026, deixou a Prefeitura do Rio para novamente tentar comandar o estado. A candidatura ocorre em um momento no qual Paes aparece na liderança das pesquisas. Levantamento Quaest divulgado em 25 de agosto mostrou o candidato com 37% das intenções de voto.
Por trás da força eleitoral, porém, existe um histórico que deverá ser amplamente explorado pelos adversários durante a campanha.
É importante ressaltar que ser investigado, denunciado ou réu não significa ser culpado, e que parte dos procedimentos envolvendo Eduardo Paes sofreu mudanças de competência, anulações ou decisões favoráveis à defesa. As acusações apresentadas abaixo devem ser compreendidas dentro de seus respectivos contextos judiciais.
Odebrecht e as suspeitas sobre recursos eleitorais
Um dos episódios mais conhecidos envolvendo Eduardo Paes nasceu das investigações relacionadas à Odebrecht.
O Ministério Público Eleitoral denunciou Paes em 2020 sob acusação de recebimento de aproximadamente R$ 10,8 milhões em vantagens indevidas, por meio de entregas de dinheiro em espécie que, segundo a acusação, teriam sido destinadas à campanha de reeleição à Prefeitura do Rio em 2012 e não teriam sido contabilizadas oficialmente.
Na ocasião, a denúncia incluiu acusações de falsidade ideológica eleitoral e corrupção, além de lavagem de dinheiro atribuída a Paes. O caso teve origem em material relacionado ao Inquérito 4.435 do Supremo Tribunal Federal e em colaborações de antigos executivos da Odebrecht.
O Ministério Público sustentou ainda que, além das declarações dos colaboradores, havia outros elementos, incluindo registros de transporte de valores e depoimentos de funcionários de uma transportadora.
Paes sempre contestou as acusações.
O codinome “Nervosinho”
Outro elemento que ganhou enorme repercussão política foi a associação do nome de Eduardo Paes ao codinome “Nervosinho” em documentos relacionados à Odebrecht.
Em denúncia do Ministério Público Eleitoral referente à eleição municipal de 2008, promotores afirmaram que colaboradores identificaram Paes como a pessoa correspondente ao codinome.
Segundo a acusação, teria sido acertado um repasse de R$ 650 mil por meio de caixa dois para a campanha daquele ano. Trata-se de uma acusação do Ministério Público e não deve ser apresentada como fato definitivamente comprovado por condenação judicial.
Inquérito sobre a campanha de 2014 chegou ao STF
Paes e o deputado Pedro Paulo também foram investigados no Inquérito 4.435, relacionado a supostas doações eleitorais ilegais.
Em março de 2024, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou naquele momento um pedido das defesas para arquivar a investigação e concedeu prazo adicional para a conclusão das diligências.
O STF informou que o procedimento investigava supostas doações ilegais na campanha de 2014 decorrentes de informações prestadas em acordos de colaboração de antigos executivos da Odebrecht.
O histórico desse caso exige cautela: decisões processuais posteriores alteraram a competência para análise de parte das acusações relacionadas às campanhas de Paes.
STF anulou decisões da Justiça Federal e determinou envio de casos à Justiça Eleitoral
Um ponto fundamental para compreender corretamente a situação jurídica de Paes ocorreu em junho de 2024.
A Segunda Turma do STF declarou que a 7ª Vara Federal Criminal do Rio não tinha competência para julgar processos nos quais Paes era acusado de caixa dois na eleição municipal de 2012 e corrupção passiva.
Com isso, o Supremo determinou o envio dos autos à Justiça Eleitoral e anulou as decisões tomadas pela Vara Federal nos respectivos casos.
Segundo o relator, ministro Gilmar Mendes, os fatos investigados estavam vinculados a supostos ilícitos eleitorais.
Portanto, seria incorreto afirmar que todas as decisões produzidas anteriormente nesses processos permanecem válidas.
Obras da Olimpíada: acusação de fraude em licitação e corrupção
Outro processo de grande repercussão esteve relacionado às obras para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016.
O Ministério Público Federal acusou Paes de crimes como fraude a licitação, falsidade ideológica e corrupção passiva envolvendo a contratação de obras olímpicas.
Segundo a acusação, teria ocorrido uma simulação no processo licitatório para a escolha das empresas responsáveis por determinados equipamentos olímpicos.
Entretanto, esse caso teve uma decisão extremamente relevante favorável ao político.
Em novembro de 2021, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça trancou a ação penal contra Eduardo Paes.
Para a maioria dos ministros, faltava justa causa para o prosseguimento da ação porque as informações apresentadas pelo colaborador, que constituíam elemento central da denúncia, não haviam sido suficientemente confirmadas por investigação policial ou diligências do Ministério Público Federal.
Assim, embora a acusação faça parte do histórico político e judicial de Paes, é indispensável registrar que a ação penal foi trancada pelo STJ.
Contratos de ônibus e ação envolvendo mais de R$ 500 milhões
Uma das maiores controvérsias administrativas envolvendo as antigas gestões de Eduardo Paes diz respeito ao sistema municipal de ônibus.
Em 2019, o Ministério Público do Rio ajuizou ação de improbidade administrativa contra Paes, o Rio Ônibus, quatro consórcios, empresas e outros envolvidos.
O MPRJ apontou supostas irregularidades no processo de licitação das linhas municipais, além de questionamentos relacionados ao custeio das gratuidades.
Na ação, o Ministério Público pediu ressarcimento ao erário e perda de valores que, somados, chegavam a aproximadamente R$ 511,7 milhões.
Em 2020, uma decisão do Tribunal de Justiça determinou liminarmente indisponibilidade de bens no contexto da ação, inclusive em relação a Paes. No caso do então ex-prefeito e de outros réus indicados pelo MPRJ, o bloqueio mencionado pelo órgão alcançava até aproximadamente R$ 240,3 milhões.
Registros do Tribunal de Justiça demonstram que a ação ainda gerava recursos e movimentações processuais em 2024.
Cancelamento de R$ 1,4 bilhão em empenhos
Outro episódio ocorreu no encerramento da gestão municipal de 2016.
O Ministério Público ajuizou, em 2018, ação de improbidade administrativa contra Eduardo Paes e antigos integrantes da administração municipal devido ao cancelamento de aproximadamente R$ 1,4 bilhão em empenhos.
Segundo o MPRJ, os cancelamentos ocorreram nos últimos dias daquele ano e atingiram despesas relacionadas a serviços prestados.
O Ministério Público estimou na ação um potencial prejuízo de R$ 144,8 milhões, considerando multas contratuais, juros e correção monetária, e sustentou que os atos contrariaram normas de gestão fiscal.
As alegações representam a tese apresentada pelo Ministério Público no processo e não podem ser tratadas, isoladamente, como uma condenação definitiva de Paes.
Marcha para Jesus e gasto de R$ 1,6 milhão
Paes também respondeu a uma ação de improbidade relacionada ao emprego de recursos municipais na Marcha para Jesus, realizada em 2013.
O Ministério Público questionou um gasto de aproximadamente R$ 1,6 milhão, realizado sem licitação, para o evento religioso.
O processo foi ajuizado em 2014 e, anos depois, chegou ao STJ, onde houve decisão permitindo naquele momento o prosseguimento da ação.
O episódio tornou-se mais uma controvérsia envolvendo a relação entre decisões administrativas da Prefeitura e a utilização de recursos públicos.
Campo de Golfe Olímpico
O Campo Olímpico de Golfe também colocou a administração Paes no centro de questionamentos.
Em ação proposta em 2016, o Ministério Público acusou o então prefeito e a empresa Fiori Empreendimentos Imobiliários de improbidade administrativa em razão de uma isenção de pagamento de taxa concedida à empresa responsável pelas obras do Campo de Golfe Olímpico.
Em julho de 2017, a Justiça recebeu a ação para seu processamento.
Mais uma vez, o recebimento de uma ação significa que a Justiça admitiu seu processamento, e não que tenha reconhecido automaticamente a culpa do acusado.
Ciclovia Tim Maia tornou-se símbolo das críticas às obras da era olímpica
Para além dos processos envolvendo diretamente Eduardo Paes, sua administração também ficou marcada por problemas em obras realizadas no período de preparação da cidade para os Jogos Olímpicos.
Um dos episódios mais graves ocorreu em abril de 2016, quando um trecho da Ciclovia Tim Maia, inaugurada poucos meses antes, desabou após ser atingido por uma forte onda.
Duas pessoas morreram.
O desastre tornou-se um dos principais símbolos utilizados por críticos para questionar planejamento, fiscalização e qualidade de obras realizadas durante a transformação urbana promovida pela Prefeitura antes da Olimpíada.
Isso não significa atribuir responsabilidade criminal pessoal a Paes pelo desabamento, mas o episódio integra o balanço político de sua administração.
Mudanças de partido e alianças também são alvo de críticas
Outro ponto frequentemente utilizado pelos adversários é a trajetória partidária de Eduardo Paes.
Ao longo da carreira, ele passou por diferentes legendas e campos políticos, incluindo PFL, PV, PTB, PMDB, DEM e PSD.
Essa capacidade de construir alianças distintas é apresentada por aliados como habilidade de articulação política. Para críticos, entretanto, representa pragmatismo excessivo e dificuldade de identificar uma posição ideológica permanente.
A eleição de 2026 volta a expor essa característica.
Paes conta com apoio do presidente Lula, mas procura ampliar sua votação entre setores de centro e direita. A composição de sua chapa e as alianças construídas no estado refletem essa estratégia eleitoral.
Promessa de permanecer na Prefeitura também virou munição eleitoral
Paes também enfrenta críticas pela decisão de deixar a Prefeitura do Rio para disputar o Governo do Estado.
Durante a eleição municipal de 2024, havia afirmado que permaneceria à frente da Prefeitura até o encerramento do mandato. Em 2026, porém, renunciou para disputar o Palácio Guanabara.
A mudança de posição passou a ser explorada pelos adversários como exemplo de quebra de compromisso político com o eleitor carioca.
O peso político de uma longa passagem pelo poder
Eduardo Paes possui uma característica que simultaneamente fortalece e fragiliza sua candidatura: sua extensa trajetória no poder público.
De um lado, seus aliados destacam experiência administrativa, grandes intervenções urbanas, realização dos Jogos Olímpicos, capacidade de articulação e sucessivas vitórias eleitorais.
Do outro, mais de uma década administrando a maior prefeitura do estado significa que Paes carrega consigo praticamente todos os problemas, controvérsias e decisões tomadas durante suas administrações.
Contratos de transporte, obras olímpicas, gastos públicos, relações com grandes empreiteiras, acusações eleitorais e escolhas administrativas estarão inevitavelmente no centro do debate eleitoral.
são provisória, absolvição, arquivamento e condenação definitiva, conceitos juridicamente diferentes.
Histórico será um dos principais campos de batalha da eleição
Com Eduardo Paes novamente tentando governar o Estado do Rio de Janeiro, sua passagem pela Prefeitura será submetida a um escrutínio ainda maior.
Seus aliados apresentarão as transformações urbanísticas, a experiência administrativa e sua capacidade eleitoral. Seus adversários deverão concentrar ataques justamente nos processos, nas antigas acusações relacionadas à Odebrecht, nos contratos públicos, nas obras olímpicas e nas mudanças de alianças políticas.
O eleitor fluminense terá, portanto, de avaliar não apenas as propostas apresentadas por Paes para os próximos quatro anos, mas também o legado de mais de três décadas de atuação política e mais de 13 anos comandando a Prefeitura do Rio.
Na disputa pelo Palácio Guanabara, o passado de Eduardo Paes provavelmente será tão debatido quanto seus projetos para o futuro.
