A união entre Baixada e Norte Fluminense promete abalar o equilíbrio político do Estado, mas também reacende velhos questionamentos sobre alianças e o esgotamento do modelo tradicional de poder.
Em um movimento que surpreende mais pela simbologia do que pela novidade, o MDB lançou oficialmente, nesta última quarta-feira (08), a pré-candidatura de Washington Reis ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, tendo Wladimir Garotinho, atual prefeito de Campos dos Goytacazes, como pré-candidato a vice. O evento, realizado na sede estadual do partido, no Centro do Rio, reuniu nomes expressivos da Baixada Fluminense e do interior, marcando o início de uma aliança que promete redesenhar — ou, ao menos, tentar redesenhar — o cenário político fluminense.
À primeira vista, trata-se de uma aliança regional estratégica: a Baixada e o Norte Fluminense, historicamente marginalizados pelos eixos de poder da capital, unem forças para tentar romper o domínio político que se alterna entre o Palácio Guanabara e os gabinetes das grandes empreiteiras.
Mas, na prática, o movimento também carrega um sinal claro de sobrevivência política. Tanto Reis quanto Garotinho representam famílias e grupos com forte capital eleitoral, mas que há anos lutam para manter relevância diante do avanço de novas forças políticas e do desgaste acumulado pela velha política de bastidores.
Washington Reis, ex-prefeito de Duque de Caxias, carrega uma imagem de gestor pragmático, porém manchada por controvérsias jurídicas e administrativas. Wladimir Garotinho, por sua vez, herdeiro do clã político mais conhecido do interior fluminense, tenta equilibrar o discurso de renovação com o peso do sobrenome.
Juntos, buscam construir uma narrativa de “união pelo Rio”, mas enfrentam o desafio de convencer o eleitor de que representam algo novo, e não apenas mais um capítulo da reciclagem de poder.
Durante o ato, as falas giraram em torno da segurança pública, bandeira que o MDB pretende transformar em centro do programa de governo. Washington Reis destacou a necessidade de um “projeto humano e moderno”, com investimento em tecnologia e valorização dos profissionais da área. É um discurso afinado com as demandas da população, mas que também repete promessas já ouvidas em inúmeros palanques ao longo das últimas décadas.
A presença de lideranças como o deputado Rosemberg Reis e o prefeito Paulinho da Refrigeração simboliza a tentativa de consolidar uma base municipalista — uma estratégia clássica de Reis, que sempre construiu poder a partir de prefeitos e vereadores. O giro anunciado pelo interior do estado reforça essa lógica: o MDB quer voltar a ser o partido das prefeituras, retomando um protagonismo que perdeu para o PL e o PSD nos últimos ciclos eleitorais.
No entanto, a grande questão que paira sobre a chapa é se essa união é capaz de romper o cansaço do eleitor fluminense com a política tradicional.
O MDB aposta no discurso da “renovação com experiência”, mas o desafio será provar que não se trata de uma simples reedição de nomes e métodos que já tiveram sua vez.
Em um estado onde escândalos, prisões e traições políticas se tornaram parte do cotidiano, o eleitorado pode estar menos disposto a embarcar em projetos que parecem mais rearranjos de conveniência do que um verdadeiro novo caminho.
O lançamento de Washington Reis e Wladimir Garotinho marca, sem dúvida, o início de uma disputa que promete ser intensa e polarizada. Mas, por ora, o que se viu foi um MDB tentando recuperar fôlego e espaço, evocando a força das regiões e o discurso da segurança — duas bandeiras que, se bem conduzidas, podem devolver relevância ao partido.
Se, no entanto, a aliança for percebida apenas como mais uma costura entre caciques em busca de sobrevivência, o tiro pode sair pela culatra.
O MDB reacende sua chama no Rio com a velha fórmula da união regional e da promessa de mudança. A diferença é que o eleitor fluminense, cansado de narrativas recicladas, talvez esteja em busca não de um novo slogan, mas de uma nova política — algo que Reis e Garotinho ainda precisarão provar que são capazes de oferecer.
Por Marcos Soares
Jornalista – Analista Político instagram.com/@marcossoaresrj
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