
Encontro ocorreu em abril de 2024, quando o Banco Master mantinha exposição financeira a precatórios do setor sucroalcooleiro; apesar da reunião, Gilmar votou contra a tese defendida pelo empresário
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, esteve no gabinete do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 11 de abril de 2024, para discutir uma disputa judicial bilionária relacionada a indenizações de empresas do setor sucroalcooleiro.
A reunião foi revelada nesta sexta-feira (18) pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Segundo a apuração, Vorcaro buscava apoio para uma interpretação jurídica que poderia preservar o valor de créditos adquiridos por fundos relacionados ao Banco Master.
O banco mantinha em sua carteira bilhões de reais em créditos vinculados a precatórios de empresas do setor. As disputas judiciais têm origem em ações indenizatórias contra a União relacionadas à política de controle de preços do açúcar e do álcool adotada pelo governo federal nas décadas de 1980 e 1990. A eventual rejeição das teses defendidas pelas empresas poderia reduzir significativamente o valor desses ativos.
Contrato de R$ 500 mil por mês aparece nas mensagens
Outro elemento revelado pelas reportagens envolve o empresário e ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, que na época era cunhado de Gilmar Mendes.
Segundo mensagens extraídas do celular de Vorcaro, Feitosa mantinha uma relação comercial com uma empresa ligada ao empresário, com remuneração indicada de R$ 500 mil mensais. Os diálogos mostram ainda que Chiquinho auxiliava Vorcaro em articulações em Brasília e participou das tratativas que levaram ao encontro com o ministro.
Em uma das conversas divulgadas pela imprensa, Feitosa aconselhou Vorcaro a estabelecer uma relação direta com Gilmar Mendes, indicando considerar essa aproximação relevante para o futuro dos interesses do empresário.
O gabinete de Gilmar Mendes afirmou que o ministro não tinha conhecimento de eventuais tratativas privadas envolvendo Vorcaro e Feitosa.
Reunião foi encaixada na agenda do ministro
As mensagens obtidas na investigação também mostram Vorcaro tratando diretamente com a secretaria do gabinete de Gilmar Mendes para definir os detalhes do encontro.
Inicialmente, o empresário pretendia permanecer aproximadamente meia hora sozinho com o magistrado e, posteriormente, receber outras pessoas na reunião. Entre os nomes mencionados nas reportagens estava o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco.
A equipe do gabinete informou, porém, que o encontro seria apenas um encaixe na agenda do ministro e teria duração estimada em cerca de 15 minutos.
Gilmar votou contra a tese defendida por Vorcaro
Apesar da audiência e do interesse financeiro associado à discussão, as informações disponíveis mostram que Gilmar Mendes não acompanhou a posição pretendida por Vorcaro nos julgamentos concretos relacionados ao tema.
Em uma das disputas envolvendo a Destilaria Alcídia, Gilmar Mendes e André Mendonça votaram contra o pedido da empresa. Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques seguiram entendimento favorável à usina, formando maioria pela procedência da demanda.
O resultado é particularmente relevante porque separa dois fatos distintos: Vorcaro efetivamente buscou uma audiência com Gilmar Mendes para defender uma tese de interesse econômico do grupo, mas o ministro posteriormente votou de maneira contrária ao interesse defendido pelo empresário.
A disputa ganhou nova repercussão em setembro de 2026 após a divulgação de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro. O conteúdo tem revelado uma ampla rede de contatos mantidos pelo ex-controlador do Banco Master com empresários, advogados, políticos e pessoas próximas a integrantes do Judiciário, alimentando novos questionamentos públicos sobre as relações institucionais e privadas existentes durante o período em que processos de elevado impacto econômico tramitavam no Supremo.



