
Por Marcos Soares — Jornalista e Analista Político
O que está acontecendo no Ceará exige muito mais do que discursos políticos, promessas de campanha e declarações de autoridades. Exige respostas concretas de um Estado que tem a obrigação constitucional de proteger seus cidadãos, garantir a liberdade e assegurar o direito de cada brasileiro viver em sua própria residência sem precisar pedir autorização a criminosos.
A situação é alarmante. Famílias estão sendo expulsas de suas casas por facções criminosas. Comerciantes sofrem ameaças e moradores enfrentam dificuldades até para comprar água mineral, um produto básico para a vida cotidiana.
Em Banabuiú, no Sertão Central cearense, a comercialização de água mineral passou a ocorrer com escolta policial após ameaças atribuídas ao Comando Vermelho. Segundo as investigações, criminosos teriam tentado controlar a distribuição, impor restrições a marcas e exigir pagamentos de comerciantes.
Estamos falando de uma realidade na qual cidadãos precisam de proteção policial não apenas para circular pelas ruas, mas até para comprar um garrafão de água.
Que país estamos construindo quando o crime organizado tenta decidir quem pode morar em determinada comunidade, quem pode trabalhar e até quais produtos podem ser comercializados?
Famílias expulsas: quando o cidadão perde o direito à própria casa
A violência das facções no Ceará ultrapassou os limites do tráfico de drogas e das disputas territoriais.
Dados da Polícia Civil, divulgados pela imprensa, apontam 219 ocorrências de expulsão de moradores por organizações criminosas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Somente em Fortaleza foram identificados 143 registros.
Em outubro de 2026, novos episódios de deslocamento forçado foram investigados no bairro Cajazeiras, na capital cearense, em meio à disputa entre grupos criminosos.
São famílias que trabalharam durante anos para conquistar suas residências e que, diante de ameaças, acabam abandonando o patrimônio e a própria história.
O medo passa a determinar a rotina. O silêncio se transforma em mecanismo de sobrevivência, enquanto organizações criminosas tentam assumir funções que pertencem exclusivamente ao poder público.
Não se trata apenas de criminalidade. Trata-se de uma grave ameaça à liberdade individual, à propriedade privada e ao direito de ir e vir.
O crime organizado agora quer controlar até a água?
O episódio de Banabuiú representa um sinal preocupante da expansão da influência econômica das facções.
Segundo as apurações divulgadas, comerciantes foram ameaçados e a venda de água mineral sofreu interrupções, levando à adoção de uma operação emergencial de abastecimento com apoio da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e das forças policiais.
Três suspeitos foram presos em outubro, e as investigações apontaram possíveis práticas de extorsão e imposição de regras criminosas ao comércio local.
A pergunta que precisa ser feita é simples: até onde o crime organizado pretende avançar sobre a vida dos brasileiros?
Hoje são relatos de controle da água, expulsões de famílias e cobranças ilegais. O receio é que outras atividades essenciais também fiquem sujeitas à intimidação criminosa.
Nenhuma sociedade democrática pode aceitar que organizações armadas substituam as instituições públicas na definição das regras de convivência.
E a declaração de Lula sobre acabar com a polícia?
Em meio a esse cenário, uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o debate presidencial de 23 de outubro de 2026 voltou a ocupar o centro das discussões políticas.
Ao abordar a PEC da Segurança Pública e a criação de um ministério específico para a área, Lula utilizou a expressão “acabar com a polícia e deixar o território livre”.
A frase provocou forte reação da oposição, que cobrou explicações sobre o significado das palavras do presidente.
É importante esclarecer, entretanto, que o contexto da declaração tratava do enfrentamento ao crime organizado. O programa de governo apresentado por Lula não prevê a extinção das forças policiais, e sua campanha afirmou que a fala foi um erro de expressão.
Isso não elimina a necessidade de esclarecimentos públicos, especialmente diante da gravidade do tema.
Quando o assunto é segurança pública, as palavras de um presidente possuem enorme repercussão. A sociedade tem o direito de conhecer, de maneira objetiva, quais medidas serão adotadas para fortalecer as polícias, enfrentar as facções e recuperar os territórios submetidos à violência.
Mas seria correto afirmar que o avanço das facções no Ceará representa o início de uma promessa presidencial de entregar territórios aos criminosos?
Não há evidências que sustentem essa relação. O avanço das organizações criminosas, contudo, exige uma cobrança rigorosa dos resultados das políticas públicas de segurança, independentemente de quem esteja governando.
Onde estão as autoridades? Quem vai proteger a população?
O enfrentamento ao crime organizado não pode ficar limitado a declarações e disputas entre partidos.
O governo federal, o governo do Ceará e os municípios precisam atuar de maneira coordenada, respeitando suas competências e garantindo estrutura, inteligência, investigação e apoio efetivo às forças policiais.
Também é necessário proteger as famílias ameaçadas, recuperar imóveis ocupados ilegalmente, combater a extorsão de comerciantes e atingir as estruturas financeiras das organizações criminosas.
As forças de segurança cearenses têm realizado investigações, prisões e operações relacionadas aos deslocamentos forçados. Em fevereiro de 2026, a Secretaria da Segurança Pública informou 64 capturas ligadas a esses crimes. Apesar dessas ações, a continuidade das denúncias demonstra a dimensão do desafio.
A população precisa de resultados duradouros, e não apenas de respostas emergenciais depois que o medo já tomou conta das comunidades.
Até quando o cidadão terá que fugir enquanto o criminoso permanece?
O cenário cearense levanta uma questão que ultrapassa as fronteiras do estado: qual é o limite da tolerância de uma sociedade diante da expansão do poder das facções?
O direito à segurança não pode depender do bairro onde o cidadão mora, da sua condição financeira ou da influência de grupos armados sobre determinada região.
Famílias não deveriam abandonar suas residências por ameaças. Comerciantes não deveriam pagar valores ilegais para manter as portas abertas. E ninguém deveria enfrentar dificuldades para comprar água porque criminosos tentam controlar o mercado local.
Cabe aos governantes apresentar medidas verificáveis, prestar contas dos resultados e assegurar que o monopólio legítimo do uso da força permaneça com o Estado, dentro dos limites da lei.
O Ceará precisa de proteção, investigação, justiça e recuperação dos espaços dominados pela criminalidade.
E o Brasil precisa discutir segurança pública com seriedade, sem transformar o sofrimento das vítimas em simples instrumento de disputa eleitoral.
A pergunta que fica é: até onde vai essa insegurança e quanto tempo mais será necessário para que famílias ameaçadas possam viver sem medo dentro de suas próprias casas?
Porque, quando o cidadão perde a liberdade de morar, trabalhar e comprar aquilo de que necessita, a violência deixa de ser apenas um problema policial e passa a comprometer os próprios fundamentos da cidadania.
Marcos Soares
Jornalista e Analista Político | Colunista



